Comércio, petróleo e política

Fernando M.C. Freitas
Almirante (R). Confraria dos Velhos Marinheiros - Liga Maritima do Brasil.

Muito obrigado, João Rosauro, pela honra que me concede com o convite para falar nesta reunião internacional de Ligas Marítimas. É um privilégio.

Pode parecer estranho - ou pelo menos curioso - que, falando hoje a respeitáveis homens do mar, o título de minha palestra não tenha referência ao mar.

Peço-lhes, entretanto, paciência. Como mostrarei adiante, neste final de século e de milênio - com todos os avanços no espaço, no átomo, telecomuni-cações e na informática - às atividades de comércio e a política estão condicionadas à habilidade das nações em usar o mar.
 
COMÉRCIO

Vou fazer uns breves comentários sobre um exemplo histórico que ilustra o valor do comércio como fonte de poder das nações.
 
Tive curiosidade de saber porque os ingleses, grandes comerciantes e corajosos marinheiros, atrasaram-se de um século para participar da expansão marítima dos povos da Europa. quando a primeira colônia inglesa na América - Virgínia - foi estabelecida, o Brasil já tinha 107 anos desde descoberto. Entre 50 a 70 anos antes, dos ingleses firmarem os pés na América, portugueses haviam fundado colônias em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, e outras; espanhóis também haviam estabelecido colônias que evoluiram para a Real Audiência de Santa Fé de Bogotá, a Presidência de Quito, a Capitânia Geral da Venezuela, o Vice-Reinado do Peru, e Santa Fé de Buenos Aires sem mencionar os bastiões do Caribe.

Depois de folhear algumas páginas da História da Inglaterra - escrita por eles e por outros - encontrei alguns fatos que podem explicar o atraso.

Durante o século XVI, a Inglaterra era uma nação de segunda categoria; sua população não chegava a 3.000 habitantes, menos da terça parte da população da cidade de São Paulo de hoje (9.9 milhões). A Espanha era o império todo poderoso da Europa, a maior potência militar. Além disso era associada ao Santo Império Romano-Alemão, dos Habsburgos, que abrangia ainda a França, Itália, Holanda e parte da França.

Como se não bastasse a composição política da ordem mundial, desfavorável à Inglaterra, enquanto corria a primeira metade do século XVI, Henrique VIII esteve ocupadíssimo, casando com 6 mulheres, decapitando duas delas, divorciando-se de outras duas e brigando com o Papa.

A briga com Roma também teve origem, inicialmente, numa questão conjugal. Henrique VIII pediu ao Papa Clemente VII a anulação do casamento com sua primeira mulher, sob alegação de que como viúva de seu irmão, o casamento não tinha valor. O Papa não achou graça na idéia, porque Catarina era tia de Carlos V e filha de Fernando e Isabel de Aragão, reis de Espanha. A anulação não interessava à política de Roma.

A questão doméstica resultou na ruptura da Igreja Inglesa com a Igreja Católica. E a Reforma de Lutero estava chegando à Inglaterra. Tudo isso gerou divisão no campo religioso, com correntes protestantes, e católica.

Mas em meio a tão grande complicações, Henrique VIII ainda teve tempo para pensar em estratégia marítima. Deu início a um programa de expansão naval que assegurou à Inglaterra o domínio dos mares estreitos, do norte da Europa. Na segunda metade do século XVI governou a Inglaterra Elisabeth, filha de Henrique VIII e de sua segunda mulher, Ana Bolena, a primeira que ele decapitou.

Elisabeth era uma mulher notável, Seu reinado - que durou praticamente a segunda metade do século XVI - foi muito perturbado por lutas religiosas entre protestantes luteranos, católicos e os seguidores da nascente Igreja Anglicana. Ainda havia a ameaça espanhola e disputas nas trocas comerciais de carvão por tecidos, etc. entre a Inglaterra e Holanda. Mas Elisabeth tinha carisma. Aglutinou as vontades políticas do povo inglês em torno de si, estabelecendo coesão social e preparou a Inglaterra para elevar-se como grande potência no século seguinte. Nas últimas décadas do século incentivou aventureiros, Drake, Raleigh e Hawkins a fustigar os espanhóis no Caribe. A política e a estratégia marítimas da Inglaterra a partir do século XVI parece clara.

No ano de l600, um grupo de comerciantes e banqueiros de Londres, obteve o consentimento, e o mesmo incentivo da Rainha, para constituir uma empresa comercial. Por falar em banqueiros e bancos - assunto em moda hoje no Brasil - vou abrir um parênteses (Enquanto eu fazia uma pesquisa na preparação dessa palestra, gostei de saber de um fato interessante. A idéia de haver um Purgatório não nasceu na Cúria Romana. Foi uma invenção dos banqueiros no século XIII. Eles foram dizer ao Papa que tinham muito pouca chance de salvação - era céu ou inferno: e que todo mundo desejava que eles fossem para o inferno. Eles pediam à sua Santidade um tribunal intermediário, antes da decisão do Senhor.

Jacques Le Goff, historiador francês, considera que a invenção do Purgatório viabilizou o moderno sistema bancário. Banqueiros e agiotas - que se confundiam - tiveram oportunidade de redenção e de adquirir alguma respeitabilidade social.

A Companhia das Índias Orientais existiu durante 250 anos; teve uma marinha e um exército próprios de grande poder e uma receita bruta superior à do governo inglês. A companhia tinha na Inglaterra uma escola própria para formação de seu quadro de funcionários; monopolizou o comércio de chá com a China e de especiarías na Índia e outras áreas. Cresceu tanto, que o Parlamento inglês houve por bem intervir e, em 1858, passou a haver um Governador Geral da Índia, nomeado pelo Rei da Inglaterra.

A estratégia naval da Inglaterra, - derivada de sua política - para garantir seus interesses comerciais, a partir do século XVII, consistiu em atacar os inimigos - espanhóis, holandeses, franceses e portugueses - nos quatro cantos do mundo, a fim de evitar que concentrassem suas forças.

Assim foi construído o império colonial inglês que durou 3 séculos no qual o Sol nunca se punha.

Eu poderia citar outros povos, como fenícios, cartagineses e romanos - grandes comerciantes - que dominaram o mundo conhecido em seu tempo. Mas a Inglaterra é mais expressiva pela influência que exerceu nos últimos séculos.

Mas, avançando na marcha inexorável da História, a globalização é o fenômeno de nossa época que vem influindo no comércio na cultura e nas relações entre os países. Na velha e na nova ordem mundial, o comércio continua mostrando ser a fonte de poder nas nações.

Vejam a evolução do comércio marítimo mundial nesta segunda metade do XX. Em 1955 eram movimentadas pelo mar 800 milhões de toneladas de trocas comerciais. Mais do que multiplicou por 3 vinte anos depois. Passou a 5 bilhões de toneladas outros vinte anos depois. E, estima-se, está atingindo 6 bilhões no ano 2.000.

Em minha fundação, é comum eu receber amigos e pessoas que me procuram para apresentar projetos que podem ter grande interesse para uso do mar.

Eu ouço com toda a atenção, procurando resposta a duas perguntas:
- quanto custa; e,
- quem paga?

Isto me faz lembrar que, em 1616, este senhor, Tojan Coen, escreveu a seus patrões da Companhia das Indias Orientais Holandesas:

³O comércio na Ásia deve ser mantido sob a proteção de nossas armas; e elas tem que ser pagas com os lucros do comércio. Não podemos fazer comércio sem guerra, nem fazer guerra sem comércio².

Aqui cabe mencionar que a Companhia das Índias Orientais Holandesas, criada dois anos depois da similar inglesa, era controlada pelos Lords XVII, um grupo formado pelos maiores comerciantes de Amsterdam. Dela emanava a política holandesa para conquista e colonização de novas terras e de empreendimentos comerciais.

Por exemplo, numa certa fase da História holandesa, os Lords XVII estabeleciam, que a África do Sul seria apenas uma base de refresco para as expedições marítimas que seguiam para Borneo, Java, etc, e reagiam contra iniciativas de colonizar o sul do continente africano.

As palavras do senhor Coen foram repetidas cerca de dois séculos mais tarde, de forma mais elaborada, por um jovem oficial prussiano, Karl Von Clausewitz, formado na escola filosófica de Immanuel Kant:

³A guerra não é um ato de paixão cega, mas é dominada pelo objetivo político. E a importância do objetivo político determina a medida dos sacrifícios necessários para obtê-lo².

Depois de tudo que acabei de comentar, tenho motivos para pensar que o comércio define os objetivos políticos e paga os custos necessários da estratégia para obtê-los. E o comércio entre as nações é preponderantemente marítimo.

Nós marinheiros, ainda teremos muito o que fazer para executar a estratégia determinada pelos objetivos políticos de nossas nações.

PETRÓLEO

Agora vou me voltar para algumas questões de petróleo, um ingrediente que vem mostrando potencial explosivo na ordem política das nações. Aliás, já vinha introduzindo sérias complicações muito antes da nova ordem.

Este quadro mostra que

a) o Oriente Médio tem 64,8% das reservas mundiais provadas de óleo;
b) a América Latina 12,7%:
c) a antiga União Soviética 57%, dos quais 49% são da República Russa atual;
d) Os Estados Unidos ainda teriam 15,6% das reservas mundiais.

E neste outro quadro aparece que

e) O Oriente Médio produz 29,1% do total mundial de petróleo; são l9,8 milhões
     de barris por dia ; e

f) Os Estados Unidos produzem em seu território 8,3 milhões de barris por dia e
     consomem em um dia l7,7 milhõe